Os olhos estavam inchados de tanto chorar. Debruçada por cima do caixão, beijando-lhe o rosto, ainda era capaz de sentir o cheiro da própria pele na dele.
"Metade desse choro é forçado, falso. Devo admitir. Mas sentirei falta desse desgraçado" - pensava, enquanto olhava os outros familiares e amigos chorando por ele também. Esther sentia os olhares de reprovação vindos na sua direção e, por vez, ouvia sussurros às suas costas:
- Piranha. Levou-o para o motel e sabe lá Deus o que fez com o rapaz. Tão jovem, vinte e cinco anos, ataque cardíaco?
- Dizem que foi morto. E ela fugiu. Viu os arranhões e roxos no braço dela? Coitada.
- De santa essa menina não tem nada... Eu tenho certeza! Olha a cara da moça. Vinte e dois anos, moteleira, vagabunda! Tem culpa. Aposto que tem culpa.
- Com um mulherão desses, até eu teria um infarto. - interrompeu o irmão do falecido - e parem de falar da moça pelas costas. Ela é noiva viúva do meu irmão.
Esther riu. Um riso sacana admitiu. Mas sorriu. Em meio à toda aquela cena, ainda tinha um outro pobre coitado que a defendia "tão gato quanto o irmão"... Passaram-se horas, velório adentro, até fecharem o caixão e irem, lentamente, à cova aberta. Sentiu uma mão lhe segurando o braço enquanto caminhava ao lado do morto e, de canto de olho, viu quem era:
- Que quer comigo, cunhado?
- Safada, vadia, sem vergonha! Pensas que eu não sei o que fizestes com meu irmão? És da pior categoria de puta, mata para sentir prazer. Não ria mais quando lhe defendo: defendo a índole do meu irmão, e não a tua, piranha!
- Pare de dizer asneiras, me ofendes. Imagina eu, matá-lo.
- Sínica. Pervertida. Seria vergonhoso demais para ele se o povo soubesse que foi morto por uma vadia de quinta categoria. Que foi, cunhadinha, ele não te comeu de jeito?
- Deixa de ser ridículo e pára de falar besteiras! Imagina pensar isso de mim, eu o amava!
Ficaram quietos. O padre deu seu discurso habitual sobre a vida eterna. Esther estava entediada e a pressão dos dedos do rapaz no seu braço a incomodavam. Sentiu medo, por segundos. Mas relaxou. "Relaxe e goze", pensou. E, por mais atriz que estivera sendo, chorou, verdadeiramente, quando cobriram seu noivo por cimentos e flores. Coroas.
Pouco a pouco as pessoas iam sumindo e o cemitério ficando quieto. Flávio não permitiu que fosse embora e a fez ficar ali, até o fim, para que ficassem a sós. Cada minuto que passava, ela sentia o frio na espinha e um desejo imensurável de fugir, mas conteu-se. Mais alguns minutos.
- Enfim, sós.
- Que queres de mim maluco? Está querendo me assustar por quê?
- Quem não deve não teme, cunhadinha. Está com o cu na mão, tem culpa no cartório.
- Eu não...
Interrompeu-a.
- Deixa de ser piranha desentendida, vaca. Achas mesmo que eu não sei que a culpa da morte do meu irmão é tua? Só não espalhei aos quatro cantos dessa merda de cidade porque seria vergonhoso demais para o meu irmão ter a vida falada por aí: "coitado, morreu no motel por uma vadia" e as outras mentiras que sucederiam a frase. "não deu conta", "batia nela", "culpa da droga"... E ele não merecia isso! Antes um infarto, natural, por puro êxtase. Mas não penses que saíras digna dessa não. Mereces carregar o peso da morte na tua consciência para o resto da tua vida. E, depois de hoje, desejarás sumir dessa cidade, antes mesmo do sol nascer...
- Que pretendes fazer comigo? Não tome atitudes precipitadas! Você não sabe o que diz!
- Não sei? E por que essa cara assustada? Teu medo é refletido pelo teu olhar. Vem cá, cunhadinha, vem. Olhe para esse túmulo.
Estremeceu. Ele a segurou pelos cabelos e a forçou a se curvar para frente, levantando a saia preta, que cobria os joelhos, e rasgando-lhe a calcinha:
- PÁRA MALUCO! PERVERTIDO! PÁRA!
- Shiiiu. Não grite, poderão ouvir. - sussurrava no ouvido, esfregando o seu pudor no dela e, enfim, dividindo-a ao meio. - era isso que meu irmão deixou de fazer? É isso que querias? Como se sentes, fazendo sexo, em cima da sepultura do seu amado? Delicioso, não?
- Pára com isso... Ele não merece... Pára...
- Isso vadia, goza. Aqui, na cara do meu irmão. Vergonhoso, não? Que situação mais humilhante essa. Ele, morto. E você, satisfeita? Conseguirás visitar-lhe depois de ter dado pra mim? Virás ao túmulo dele para chorar a morte ou para relembrar dos momentos de prazer que te dei?
Empurrou-o para longe e saiu correndo, aos prantos, para longe...
- Vai vadia, vai. E não volta...
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Alucinado por Carol Xavier às 12:26 13 pílulas
Marcadores: Esther
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Caminhava por entre flores: jasmins, margaridas, girassóis. Por vezes, arrancava uma ou outra flor da verde grama e ficava a exclamar:
- Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer.
Frustrava-se. Juliana repetiu a brincadeira várias vezes, para o João, para o Ricardo, para o Fábio, pro Guilherme, pro Thiago, pro Tiago sem h e pro vizinho, do 9° andar que ainda não sabia o nome, mas tinha esbarrado com este algumas vezes no elevador.
Mania de apaixonar-se, a de Juliana. Tinha uns vinte e tantos amores guardados no peito:
- Mal-me-quer, mal-me-quer também. Mal-me-quer. Mal-me-quer. Mal-me-quer. Mal-me-quer. Mal-me-quer. Mal-me-quer...
Numa árvore, desenhou um coração: Ju e ninguém mais.
terça-feira, 1 de julho de 2008
Sentia-se suja. Imunda. Refletia no espelho a sua pele branca, seus olhos borrados. As lágrimas desciam pretas até metade do rosto. O coração palpitava acelerado dentro do peito e ela sentia um medo descomunal de tudo, da vida.
Insaciáveis, as lágrimas iam lavando a alma e borrando tudo à volta. Estas chegavam ao queixo, geladas. Fazia frio. Renata secou-as com o dorso da mão e, por vez, enxugava a mão no alaranjado pijama...
Com os pulsos para cima, Renata observava a cicatriz, paralela ao pulso, vermelhas. Ainda doíam. Afinal, não tinha tanto tempo que estava em casa.
Arregalada, olhava o quarto recém novo. Estava em sua casa, mas tudo era estranho demais... No canto esquerdo, logo acima da porta, estava ela: quieta, piscando um único ponto de luz vermelha, apontando para Renata...
Renata enraiveceu por estar sendo vigiada. Desejou morte àqueles que a queriam bem e sentiu aversão a si mesma, pelo sangue que, não o dela, corria na veia:
- Por ele estou viva. Nesse mundo que não é mais meu.