terça-feira, 26 de agosto de 2008

Andava sem parar de um lado para o outro do apartamento. O coração ainda não tinha desacelerado, as lágrimas ainda não haviam secado: "vou-me embora desse cu de cidade", decidiu. Pegou pepel e caneta e escreveu:

"Mãe,
o povo dessa cidade anda me criticando e julgando-me pela morte do meu querido noivo. Estou com medo de cometer alguma loucura. Com eles, comigo.
Calma, não quero que se assuste! Por este fim, decidi ir embora dessa cidadezinha fofoqueira e mentirosa. Tenho minhas economias e, quando conseguir me estabelecer novamente, mandarei algum para a senhora.
Não me procure. Ficarei bem, mandarei notícias. Mas preciso ir embora, alguém aqui não quer me ver viva.

Com amor,
Esther"

Pegou sua maior mala e começou a separar as coisas que precisava levar com ela. O que não precisava, quebrava e jogava fora. Guardou algumas roupas quentes, poucos casacos, sapatos, sandálias e havaianas. Suas melhores roupas, presente do falecido. Biquinis, quase nunca usados. Maquiagem. Certificou-se de que não esquecera de nada, fechou a mala e a deixou num canto.

Acendeu um cigarro.

Entre um trago ou outro, rasgava, uma a uma, as fotos que tinha com Bruno e sua família. Uma a uma. Olhava-o com certo remorso, mas não arrependera-se do que fizera. "Tão bonito e um fim tão trágico"... E rasgava. Certificou-se de que não sobrara uma foto sequer... Entre elas, achou uma na qual se encontrava ao meio dos dois irmãos: Bruno e Flávio. "Flávio, o filho da puta do Flávio, que me comeu em pleno enterro do irmão...". Apagou o cigarro em cima da cara dele, abriu a bolsa e guardou a foto queimada:

- Rio de Janeiro, aí vou eu.