Andava sem parar de um lado para o outro do apartamento. O coração ainda não tinha desacelerado, as lágrimas ainda não haviam secado: "vou-me embora desse cu de cidade", decidiu. Pegou pepel e caneta e escreveu:
"Mãe,
o povo dessa cidade anda me criticando e julgando-me pela morte do meu querido noivo. Estou com medo de cometer alguma loucura. Com eles, comigo.
Calma, não quero que se assuste! Por este fim, decidi ir embora dessa cidadezinha fofoqueira e mentirosa. Tenho minhas economias e, quando conseguir me estabelecer novamente, mandarei algum para a senhora.
Não me procure. Ficarei bem, mandarei notícias. Mas preciso ir embora, alguém aqui não quer me ver viva.
Com amor,
Esther"
Pegou sua maior mala e começou a separar as coisas que precisava levar com ela. O que não precisava, quebrava e jogava fora. Guardou algumas roupas quentes, poucos casacos, sapatos, sandálias e havaianas. Suas melhores roupas, presente do falecido. Biquinis, quase nunca usados. Maquiagem. Certificou-se de que não esquecera de nada, fechou a mala e a deixou num canto.
Acendeu um cigarro.
Entre um trago ou outro, rasgava, uma a uma, as fotos que tinha com Bruno e sua família. Uma a uma. Olhava-o com certo remorso, mas não arrependera-se do que fizera. "Tão bonito e um fim tão trágico"... E rasgava. Certificou-se de que não sobrara uma foto sequer... Entre elas, achou uma na qual se encontrava ao meio dos dois irmãos: Bruno e Flávio. "Flávio, o filho da puta do Flávio, que me comeu em pleno enterro do irmão...". Apagou o cigarro em cima da cara dele, abriu a bolsa e guardou a foto queimada:
- Rio de Janeiro, aí vou eu.
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Alucinado por Carol Xavier às 08:13 15 pílulas
Marcadores: Esther
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Os olhos estavam inchados de tanto chorar. Debruçada por cima do caixão, beijando-lhe o rosto, ainda era capaz de sentir o cheiro da própria pele na dele.
"Metade desse choro é forçado, falso. Devo admitir. Mas sentirei falta desse desgraçado" - pensava, enquanto olhava os outros familiares e amigos chorando por ele também. Esther sentia os olhares de reprovação vindos na sua direção e, por vez, ouvia sussurros às suas costas:
- Piranha. Levou-o para o motel e sabe lá Deus o que fez com o rapaz. Tão jovem, vinte e cinco anos, ataque cardíaco?
- Dizem que foi morto. E ela fugiu. Viu os arranhões e roxos no braço dela? Coitada.
- De santa essa menina não tem nada... Eu tenho certeza! Olha a cara da moça. Vinte e dois anos, moteleira, vagabunda! Tem culpa. Aposto que tem culpa.
- Com um mulherão desses, até eu teria um infarto. - interrompeu o irmão do falecido - e parem de falar da moça pelas costas. Ela é noiva viúva do meu irmão.
Esther riu. Um riso sacana admitiu. Mas sorriu. Em meio à toda aquela cena, ainda tinha um outro pobre coitado que a defendia "tão gato quanto o irmão"... Passaram-se horas, velório adentro, até fecharem o caixão e irem, lentamente, à cova aberta. Sentiu uma mão lhe segurando o braço enquanto caminhava ao lado do morto e, de canto de olho, viu quem era:
- Que quer comigo, cunhado?
- Safada, vadia, sem vergonha! Pensas que eu não sei o que fizestes com meu irmão? És da pior categoria de puta, mata para sentir prazer. Não ria mais quando lhe defendo: defendo a índole do meu irmão, e não a tua, piranha!
- Pare de dizer asneiras, me ofendes. Imagina eu, matá-lo.
- Sínica. Pervertida. Seria vergonhoso demais para ele se o povo soubesse que foi morto por uma vadia de quinta categoria. Que foi, cunhadinha, ele não te comeu de jeito?
- Deixa de ser ridículo e pára de falar besteiras! Imagina pensar isso de mim, eu o amava!
Ficaram quietos. O padre deu seu discurso habitual sobre a vida eterna. Esther estava entediada e a pressão dos dedos do rapaz no seu braço a incomodavam. Sentiu medo, por segundos. Mas relaxou. "Relaxe e goze", pensou. E, por mais atriz que estivera sendo, chorou, verdadeiramente, quando cobriram seu noivo por cimentos e flores. Coroas.
Pouco a pouco as pessoas iam sumindo e o cemitério ficando quieto. Flávio não permitiu que fosse embora e a fez ficar ali, até o fim, para que ficassem a sós. Cada minuto que passava, ela sentia o frio na espinha e um desejo imensurável de fugir, mas conteu-se. Mais alguns minutos.
- Enfim, sós.
- Que queres de mim maluco? Está querendo me assustar por quê?
- Quem não deve não teme, cunhadinha. Está com o cu na mão, tem culpa no cartório.
- Eu não...
Interrompeu-a.
- Deixa de ser piranha desentendida, vaca. Achas mesmo que eu não sei que a culpa da morte do meu irmão é tua? Só não espalhei aos quatro cantos dessa merda de cidade porque seria vergonhoso demais para o meu irmão ter a vida falada por aí: "coitado, morreu no motel por uma vadia" e as outras mentiras que sucederiam a frase. "não deu conta", "batia nela", "culpa da droga"... E ele não merecia isso! Antes um infarto, natural, por puro êxtase. Mas não penses que saíras digna dessa não. Mereces carregar o peso da morte na tua consciência para o resto da tua vida. E, depois de hoje, desejarás sumir dessa cidade, antes mesmo do sol nascer...
- Que pretendes fazer comigo? Não tome atitudes precipitadas! Você não sabe o que diz!
- Não sei? E por que essa cara assustada? Teu medo é refletido pelo teu olhar. Vem cá, cunhadinha, vem. Olhe para esse túmulo.
Estremeceu. Ele a segurou pelos cabelos e a forçou a se curvar para frente, levantando a saia preta, que cobria os joelhos, e rasgando-lhe a calcinha:
- PÁRA MALUCO! PERVERTIDO! PÁRA!
- Shiiiu. Não grite, poderão ouvir. - sussurrava no ouvido, esfregando o seu pudor no dela e, enfim, dividindo-a ao meio. - era isso que meu irmão deixou de fazer? É isso que querias? Como se sentes, fazendo sexo, em cima da sepultura do seu amado? Delicioso, não?
- Pára com isso... Ele não merece... Pára...
- Isso vadia, goza. Aqui, na cara do meu irmão. Vergonhoso, não? Que situação mais humilhante essa. Ele, morto. E você, satisfeita? Conseguirás visitar-lhe depois de ter dado pra mim? Virás ao túmulo dele para chorar a morte ou para relembrar dos momentos de prazer que te dei?
Empurrou-o para longe e saiu correndo, aos prantos, para longe...
- Vai vadia, vai. E não volta...
Alucinado por Carol Xavier às 12:26 13 pílulas
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quarta-feira, 2 de julho de 2008
Caminhava por entre flores: jasmins, margaridas, girassóis. Por vezes, arrancava uma ou outra flor da verde grama e ficava a exclamar:
- Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer.
Frustrava-se. Juliana repetiu a brincadeira várias vezes, para o João, para o Ricardo, para o Fábio, pro Guilherme, pro Thiago, pro Tiago sem h e pro vizinho, do 9° andar que ainda não sabia o nome, mas tinha esbarrado com este algumas vezes no elevador.
Mania de apaixonar-se, a de Juliana. Tinha uns vinte e tantos amores guardados no peito:
- Mal-me-quer, mal-me-quer também. Mal-me-quer. Mal-me-quer. Mal-me-quer. Mal-me-quer. Mal-me-quer. Mal-me-quer...
Numa árvore, desenhou um coração: Ju e ninguém mais.
